Memórias sobre o Hospital do Sabugal (4)

«Seguem com a morosidade necessária as obras. Está-se procedendo à colocação das pedras para as janelas e portas em arco da fachada principal. (12-7-1931) (continuação.)

Romeu BispoNa colocação de uma destas pedras um elo da corrente vem bater ainda num trabalhador de 15 anos a quem fiz o tratamento, aplicando três agrafes sobre uma ferida no coiro cabeludo, região parietal direita.
Varanda ou não varanda? É a discussão agora em dia na C. da Misericórdia. Parece que resolvem não aplicar a varanda, no tipo da varanda da casa onde está o depósito dos tabacos, com cuja decisão eu concordo, mas deveria aplicar-se a varanda com duas colunas como está na planta que vem do Porto, servindo-nos do cimento e vigas de ferro para fazer o suporte para as pedras que viriam da parede para as colunas e parte entre colunas. Não se faz com certeza este melhoramento na fachada principal, contudo é pena, porque traria embelezamento que mais tarde não poderá ter aplicação. Qual o motivo? A falta de capital que está quasi esgotado, a crise de falta de dinheiro, de desemprego, de carência é sempre um facto vulgar, banal que se encontra a toda a hora; como seria mais agradável que a crise fosse de abundância e que o nosso trabalho fosse todo no sentido de procurar arabescos bonitos, utensílios e desenhos complicados para poder aplicar o excesso de capita!!!»
Manuscrito de Francisco Maria MansoAs obras vão continuando com o assentamento das escadas exteriores e os carpinteiros avançam com a armação do telhado. No 18-09-1931 o sr. Dr. Manso escreve:
«Passei hoje pelas 11 horas a cavalo junto ao hospital e o seu aspecto agradou-me completamente, apesar de ser apenas o esqueleto sem as belezas da carne e dos enfeites…, mas com médico soube observar que o esqueleto está bem conformado…, venha o reboco, o pó d´arroz, o chapéu de “Marselha” e então preencherá os olhos do caminhante num doce enlevo de arte e de asseio…»
Mas, em Novembro desse ano, após a colocação do telhado as obras paralisaram completamente devido à falta de verbas: «Esperávamos da “assistência” grande verba e afinal tivemos uns 2.000$00!!
A falta de dinheiro é um mal tão espalhado que por mais lástimas que se chorem aos poderes públicos tão endurecidos por lá estão os corações, que não vem refrigério para tão grande mal, nem se lhe percebem lágrimas sentimentalistas perante as lágrimas compungidas das Mesericórdias…»
No próximo artigo vamos dar um salto temporal e ficaremos mais próximos da inauguração.
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)

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