«Caldo de grães e orelheira» de Abel Saraiva

É sobejamente conhecido o esplendor da escrita de Eça de Queirós, no que tange à nossa culinária popular, de que era inveterado apreciador. E o quadro literário mais eloquente é o do fidalgo Jacinto, vindo de Paris até às berças, onde, por inusitado incidente, se vê obrigado a manjar um caldo de galinha e um arroz de favas. E quanto lhe agradou a comida, ainda que tomada em casa pobre!

Livro de Abel saraivaCom as devidas diferenças no que toca ao esplendor das letras, mas com igual emoção e rigor descritivo, notamos que há um quadro idêntico aqui passado nas nossas terras beirãs. Para o avistarmos temos de ir ao encontro de Abel Saraiva, irrefragável contista e desvelado colector das tradições populares. O seu livro «Recordações da Minha Aldeia» leva-nos aos Gagos da primeira metade do século XX. Aldeia rural, na envolvente da antiga vila do Jarmelo, a terra estava prenhe de gente e de tradições populares. Desfiando essas tradições, e descrevendo a gente peculiar que ali habitava, Abel Saraiva conduz o leitor ao âmago do povo, ao encontro do seu saber, bem como da sua humildade e valentia.
Deslumbrante é o conto intitulado «O tabelião não era fidalgo», onde expõe a história de um homem modesto, o ti Bernardino, que leva a casa o notário da cidade da Guarda, que dera passo pelos Gagos no exercício da sua profissão. Para a mulher do anfitrião a sua reles cozinha não teria condições de assim receber, de chofre, um doutor vindo do luxo da cidade, mas, mais uma vez, o paladar da comida aldeã fez um milagre, deixando maravilhado o visitante. Vejamos um curto trecho da eloquente história de Abel Saraiva:
«Quando o tabelião fechou o livro de notas, passava do meio-dia, pelo que o ti Bernardino com toda a franqueza o convidou para almoçar em sua casa, avisando porém que não esperasse manjar esquisito, mas apenas um comer caseiro: caldo de “grães” com repolho e orelheira de porco com grelos e batatas cozidas.
(…)
Pouco depois a ti Zefa disse que o almoço estava pronto, que ia já por a mesa na sala, pois parecia mal um Sr. Doutor da Guarda comer na cozinha; este atalhou-a logo, que nem pensasse nisso, que era ali mesmo, ao pé do lume e das panelas, tudo ao singelo, à moda da aldeia.
Sem mais cerimónias, a dona da casa começou a servir o suculento caldo: para ela e para o marido deitou-o em caços, mas para o ilustre hóspede ia tirar do “almário” uma malga de Sacavém; este teve logo mão nela, agarrou um caço e pediu que lho enchesse; a deliciosa sopa soube-lhe tão bem que pediu licença e com a maior naturalidade deste mundo agarrou na gadanha, destapou a panela e secundou ele mesmo.
Veio depois uma almofia com a orelheira, grelos e batatas cozidas; cada um comeu no seu esborcinado prato de louça barata, servindo-se de toscos garfos de ferro, facas de fabrico local e canecas vidradas, às quais dava serventia uma velha jarra de vinho de colheita; o tabelião comeu e bebeu tão regaladamente que nem malhador no fim da eirada.
Uma barranha de maças agras e peras inverniças pôs o ramo no almoço; o tabelião nem tocou na fruta: pena tenho eu de a não poder comer, mas estou cheio que nem um tambor, declarou repimpado.»

Há uns anos mantive uma colaboração com o semanário guardense «Terras da Beira» através da coluna Sabores Literários, de que este texto, agora algo retocado, fazia parte. Dado o eventual interesse destes escritos, que falam de literatura e de gastronomia, parte dos mesmos serão agora reeditados neste blogue, com ligeiros acertos de linguagem.
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

4 Responses to «Caldo de grães e orelheira» de Abel Saraiva

  1. José Batista da Ascenção diz:

    As comidas típicas do ambiente rural português, em cada uma das várias regiões, desde trás-os-montes, passando pelas beiras (interiores e litoral), seguindo pelo ribatejo, descendo pelo alentejo até ao algarve, revelam pratos de rebentar a comer e desejar mais. E o litoral, com os modos diversos de cozinhar peixe, não lhes fica atrás. Conhecessem os estrangeiros, e mesmo muitos portugueses, as delícias das comidas portuguesas, e talvez o nosso turismo gastronómico se tornasse mais rentável. E se pensarmos na qualidade alimentar de pisas, hamburguers e afins, até é crime não educarmos as nossas crianças a saborear as sopas de tradição, com os diversos legumes bem à vista, e os pratos que fizeram salivar todos os portugueses para cima da meia-idade. Em termos alimentares, desperdiçamos o bom que temos para o trocarmos por venenos que hão-de matar-nos de obesidade e colesterol. Mas assim vão os tempos.

  2. Kim Tomé diz:

    Pois é!
    Estamos a perder tudo isto, a ligação com a terra mãe esta a perder-se, somos a geração que assiste à mais rápida e extensa destruição cultural da história.
    Seremos a geração que vai assinar o suicídio da nossa cultura?

  3. E caldo de vagens secas??
    Aquilo parece palha… mas sabe tão bem!!
    tinha ranço?? mas qual ranço se os homens iam trabalhar! como era boa aqula chouriça que também lá se metia… e rebentava, dando ao caldo um “ar” de pimentão, que fazia desnhos no cimo da panela.
    Comia-se, e não havia triturador, nem sequer tinhamos que retirar os fios do feijão.

    Bom dia e bom apetite

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