À fala com… Carlos do Poço

«Discoteca O Poço – 30 anos». Quem passa na estrada Nave-Vila Boa avista junto às pedreiras um placard com fundo negro onde se pode ler que «O Poço» está a comemorar três décadas de existência. Numa destas quentes tardes do mês de Agosto estivemos à conversa com o seu fundador e gerente de sempre: o soitense Carlos Carvalho também conhecido como o Carlos das Cestas (a alcunha do pai) ou mais popularmente como o Carlos do Poço.

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A primeira foi o «Teclado». Imaginada pelo visionário António Fernandes (Tó Chuco) nasceu no Verão de 1979 e gerou, desde logo, opiniões extremadas nas conversas aldeãs. Por um lado a «boîte» era acusada de ser um antro de perdição e por outro um local de desejo (quase proibido) para os jovens de gerações culturalmente revolucionárias nascidas com o 25 de Abril.
«Com 11 ou 12 anos iniciei-me a levar pessoal para atravessar a fronteira» recorda o Carlos do Poço. «Então foi passador…», acrescentamos. «Não. Ainda era muito novo e não tinha capacidade para isso. Trabalhava para um passador. Cheguei a atravessar a Espanha até à fronteira com França». Optou por uma vida com menos riscos e fez-se estafeta dos CTT. Antigamente, no Sabugal, o correio chegava no «Beira Baixa» à estação da CP do Barracão e era recolhido e entregue pela «Viúva Monteiro» nos comércios das aldeias por onde passava a «carreira». Depois os estafetas locais, a pé ou de bicicleta, encarregavam-se de levar o saco protegido com um cadeado até às aldeias vizinhas.
O jovem Carlos Carvalho foi mobilizado para Angola e colocado durante dois anos em Gago Coutinho. No regresso ao Soito comprou um camião e começou a trabalhar no ramo dos materiais de construção. No sítio do Prado Telhal, junto ao cruzamento do Soito, iniciou a construção de uma casa de habitação aproveitando os terrenos que já serviam para estaleiro dos materiais de construção.
E foi nessa altura que «influenciados pelo sucesso do Teclado a funcionar há cerca de um ano surgiu o desafio de dois rapazes da Nave para abrir uma discoteca». «Mesmo sem licença abrimos O Poço no dia 20 de Dezembro de 1979 para fazer o Natal e a passagem de ano», desvenda o empresário.
– Nunca tinha pensado em ser «empresário da noite»?
– Não. A região não tinha tradição deste tipo de negócio. Um ano antes um emigrante que voltou de França (Tó Chuco) abriu o «Teclado» mas eu nunca me tinha imaginado neste ramo. Passando algum tempo os meus sócios saíram mas eu mantive a porta aberta até hoje.
– Como eram os clientes dos primeiros tempos? Ainda se sentia a revolução no ar?
– Nesse tempo havia muita malta nova nas aldeias. A música que passávamos no início era muito à base do slow, das espanholadas, do rumba, do pasodoble e da música de baile. Era o tempo das calças à boca de sino mas ainda não tinha sido inventada a música pimba. Os discos eram todos em vinil e implicavam um grande investimento porque tínhamos que renovar mensalmente. Actualmente com os formatos digitais os custos são mínimos e estamos sempre actualizados.
– Como foram as reacções?
– No princípio os mais velhos nem sequer vinham. Depois, pouco a pouco, tornou-se normal ir à discoteca. Mas com uma diferença. Actualmente na nossa zona ir à discoteca é como ir ao café. Antigamente convidava-se a miúda mais jeitosa e vestia-se o melhor fato. Nesse tempo trabalhávamos nas noites de sexta-feira e sábado e ao domingo com matinée e soirée. O horário de fecho era à uma hora da manhã. Agora abrimos às três e fechamos às seis.
– Ao longo destes anos houve poucas modificações no «Poço»?
– Na altura abrimos sem licença porque precisavamos saber o que a fiscalização nos exigia para depois fazer. Foi um pouco ao contrário porque não havia legislação própria. O «Poço» foi legalizado em 1980 apesar de ter pouco pé-direito. O que acontece agora é que não podemos fazer obras de fundo que obriguem a uma fiscalização porque depois não nos aprovam.
– Mas as coisas nem sempre corriam bem…
– O pessoal estava habituado ao bailarico no largo da aldeia e quando vinham para a discoteca sentiam-se acanhados para dançar. Depois com as luzes, a música alta e o álcool aconteciam pequenas escaramuças e confusões. As discussões e as bofetadas não levavam a nada. Era aquele momento e acabou. Normalmente saiam para fora e depois havia sempre um ou outro que os agarrava e terminavam todos no bar a beber mais um copo. Aliás, deixei de ter porteiro há oito anos. Na nossa zona é difícil um porteiro dizer a um cliente habitual que não pode entrar. Actualmente a porta está encostada com uma mola e aberta a todos.
– Recordo-me que nesse tempo se escolhia a discoteca que tivesse mais carros no parque…
– É verdade. As pessoas juntavam-se onde havia mais carros. Não tinha a ver com a música, com as mulheres ou com o espaço. Passavam na estrada e onde havia mais carros paravam e entravam. Antigamente cinco carros já faziam um bom ambiente no «Poço». Chegavam a vir oito e dez no mesmo carro. Agora são precisos 50 carros porque vêm apenas uma ou duas pessoas em cada. Havia uma equipa de doze rapazes da Rapoula que chegavam todas as noites num carrito. (sorrisos).
– Em tempos houve a moda das petisqueiras associadas às discotecas?
– Foi uma exigência dos clientes para não passarem a noite só a beber. O «Teclado» foi, mais uma vez, pioneiro com uma cozinha e sala interior junto à pista de dança. Nesse tempo ainda não havia micro-ondas e o cheiro trouxe alguns problemas. Aqui, no «Poço», a primeira petisqueira foi ao ar livre. Mas como as noites na nossa zona são frias tivemos que melhorar o espaço com paredes, lareira e ecrã gigante.
– Agora a afluência às discotecas é menor…
– O «Poço» chegou a abrir todos os dias das férias escolares e todos os dias do mês do Agosto. Mas há nove, dez anos que tudo está diferente. Chegaram a estar abertas cerca de uma dezena de discotecas no nosso concelho. Com as novas leis do código da estrada houve grandes alterações nos hábitos dos sabugalenses mas haverá sempre espaço para uma discoteca na zona e o «Poço» só irá fecha se ninguém quiser continuar quando eu me reformar.
– Quem está por detrás do balcão houve muitas «estórias»…
– Ao fim de 30 anos nesta vida devo conhecer pelo nome cerca de um terço da população do Sabugal. Os que cá estão e os emigrados. O pessoal do concelho do Sabugal queixa-se que ainda nada foi feito para parar a desertificação. É uma desgraça para nós e para o País. A nossa qualidade de vida é muito superior até à cidade da Guarda no entanto o Sabugal está a transformar-se numa colónia de férias. Mas deixo um pedido a todos: visitem-nos porque o concelho do Sabugal vale a pena.

O «Teclado», o «Poço», o «Upita» e o «Templo» marcaram gerações de sabugalenses. Era o tempo das Famel Zundapp e dos carros onde cabia sempre mais um à boleia. Na raia as tardes e noites dos sábados e domingos do mês de Agosto eram nas discotecas e apenas tinham um ligeiro intervalo para ir jantar ao Pelicano de Alfaiates. Foram Agostos memoráveis.
A discoteca «Teclado» após alguns anos de agonia fechou em 2009 e poderá reabrir com outro «ramo». A discoteca «O Poço», do Carlos, comemora 30 anos de existência no próximo dia 20 de Dezembro.
jcl

3 Responses to À fala com… Carlos do Poço

  1. A diz:

    Parece-me que também houve outras duas discotecas no Sabugal: uma numa rua por detrás da igreja, no centro do Sabugal, e outra nas bombas da shell. Alguém se lembra? E uma outra na Vila do Touro?

  2. José Manuel de Aguiar diz:

    A:
    Todas com obras de Eugénio Macedo.

    O Pôço… quem não terá inolvidáveis memórias desse ícone sabugalense?
    Cumprimentos ao Carlos, sem esquecer a Fernanda que será para sempre o “génio tutelar” da casa.

  3. joao valente diz:

    Passei lá algumas boas tardes da minha juventude. A minha primeira oficiosa no Sabugal, foi sobre um par de sopapos que a malta da Nave aplicou no “Pôço” a um polícia do Sabugal. Acerto de contas por outro “arraial” da polícia na noite de S. João no Sabugal. Contas saldadas, o Juíz mandou toda a gente em paz.

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