Memórias sobre o Hospital do Sabugal (2)

Da história da construção do hospital fazem parte alguns factos curiosos, mas para os contar nada como ler o ilustre sabugalense, Dr. Francisco Maria Manso.

Romeu Bispo«Das antigas muralhas de cintura do magestoso Castelo do Sabugal, restavam panos incompletos, cercados já por muros de quintas. A muralha era a parede divisória do quintal da família «Bigote» e da viúva «Canaveira». Mesmo ao cinto da parede divisória o pano de muralha estava quase completo. Na sua parte superior existia um velho carvalho todo coberto de «era», onde os rouxinóis em noites de luar subiam a gargear as suas serenatas, que muitas vezes ouvi extasiado.
Resolveu a C. da Mesericórdia construir o Hospital com o auxílio desta pedra e foi um pouco contristado que vi apear essas pedras que ali estiveram engrinaldadas de era durante séculos e que mereciam o respeito da nossa geração em nome Da esthética e para relembrar o esforço dos nossos avós levantando muralhas e castelos para manter a independência de Portugal e assegurar o seu pleno domínio.
Ainda propuz que não se demolisse esse pano de muralha e que conforme alguém lembrou se abrisse uma rua que passaria por baixo desse pano de muralha e seguiria quase em linha recta ao «teatro». A Comissão da Misericórdia não concordou e a pedra foi levada em carros de bois e camionetes para o local do hospital. O transporte foi gratuito e tanto os lavradores como os proprietários de camionetes (sr. Bartholomeu e Lucas) trabalharam com afan, querendo dar todo o esforço para a realização desta obra, mas as dificuldades não podiam tardar! Poucas pedras estavam ainda nos alicerces, quando se recebeu ordem telegráfica, endereçada ao delegado da comarca, para embargar as obras e levantar processo averiguando responsabilidades. Devia a origem ter sido qualquer conversa ou carta com o director dos Monumentos Nacionais, que tomou providências no sentido de salvar as muralhas. O Sr. Presidente da Câmara, falou neste sentido com o Sr. Governador Civil e d´ali vem ordem para continuar as obras. Continuaram… e poucos dias depois voltava outra ordem para suspender.
Manuscrito de Francisco Maria MansoFoi uma comissão a Lisboa, composta do Presidente da Comissão da Misericórdia (Dr. Carlos Frazão), Presidente da Câmara (Afonso Lucas) e Dr. Galhardo que trouxeram ordens para as obras continuarem e foram recebidos com foguetes. Passado poucos dias vinha um engenheiro dos Monumentos Nacionais do Ministério da Guerra e avaliava as pedras da muralha em 8 contos que aquele ministério mandou que se pagasse… Por intermédio do Sr. Dr. João José Garcia, essa ordem ficou sem efeito e as obras livres para continuar.
As obras foram seguindo e quando um dos membros da Comissão da Misericórdia (Sousa Martins) regressava de dois meses de ausência, notava deficiências na aplicação da “cal” e como resolvesse medir o comprimento das paredes encontrou que o hospital tinha menos um metro e meio de que marcava a planta. Chamado o empreiteiro verificou-se que a fita métrica de que se servia tinha 3 centímetros a menos em cada metro.
Pediu-se a vinda de um técnico que condenou a obra e mandou que se desfizesse tudo o que estava feito… Intimado o empreiteiro… depois de várias peripécias desapareceu e os fiadores tiveram de arcar com as responsabilidades das clausulas postas na escritura e assim desfazer tudo o que estava feito, não obrigando a C. da Misericórdia ao pagamento da multa, por comiseração.»
Em Julho de 1930 escreve o Sr. Dr. Francisco Maria Manso: «Desfeitas as obras, modificou-se ligeiramente a planta e anunciou-se nos jornais nova arrematação».
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)

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