A aventura de ser emigrante

Somos um povo de emigrantes e estamos espalhados pelo mundo inteiro, mas muitos dos portugueses que optaram por sair do País para buscarem melhor vida tiveram de comer o pão que o diabo amassou.

Ventura Reis - TornadoiroNoutro tempo não era qualquer um que decidia emigrar. É que isso não era livre. A Junta da Emigração definia o contingente de emigrantes autorizados a sair, por região e por profissão e isso condicionava as opções de cada um.
Claro que havia a possibilidade de sair a salto, pela fronteira terrestre, como muitos sabugalenses vieram a fazer, correndo os seus riscos, mas quem queria seguir a via legal metia-se no cabo dos trabalhos.
A pessoa que queira emigrar tinha de pedir uma licença na Câmara Municipal, a qual, depois de colher informações acerca do requerente, o remetia para a Junta da Emigração. Muitas vezes a autorização apenas era possível com uma carta de chamada devidamente reconhecida pelo consulado português do país onde fora emitida. Tratando-se de mulher, tinha de apresentar uma autorização escrita do marido e os menores de 21 anos uma autorização dos pais.
Depois de emitida a autorização o candidato a emigrante apresentava-se no ponto de embarque, onde era sujeito a uma inspecção médica. Só após a inspecção médica lhe era entregue o passaporte.
O meu tio José Reis, que embarcou para o Brasil em 1948, em busca de melhor vida, teve que cá deixar a família e avançar ele só na aventura, levando todas as poupanças que arranjou mais o dinheiro que pediu emprestado a familiares e amigos.
A Junta da Emigração andava atenta, pretendendo evitar que homens com actividade política considerada subversiva abandonassem o país, assim se eximindo à prisão. Por isso as Câmaras tinham ordens muito claras para fazerem rigorosas averiguações. E meu tio, que era um homem culto e que cada vez que ia ao Sabugal comprava o jornal para se manter informado, foi alvo da recomendação especial para os casos em que havia dúvidas: o recurso à PIDE.
Um dia foi chamado à Câmara Municipal e daí conduzido por dois homens desconhecidos e bem falantes ao posto da Guarda Republicana, onde foi sujeito a rigoroso interrogatório. Teve de explicar a razão por que um campónio, que vivia da lavoura, comprava jornais e qual o destino que dava aos mesmos.
Apenas passados dois anos o meu tio foi chamado a Lisboa para embarcar. Passado algum tempo a sua família juntou-se-lhe e por lá ficaram todos.
Conto esta história para fazer ver a dificuldade que era emigrar naquele tempo de ditadura, que nada tem a ver com as facilidades que se colocam, nos dias de hoje e, neste caso, ainda bem que assim é.
«Tornadoiro», crónica de Ventura Reis

7 Responses to A aventura de ser emigrante

  1. João Duarte diz:

    “A Junta da Emigração andava atenta, pretendendo evitar que homens com actividade política considerada subversiva abandonassem o país, assim se eximindo à prisão”
    Efectivamente assim acontecia nesses tempos de regime ditatorial (mas a que que alguns, agora, chamam regime autoritário).
    Como exemplo leia-se esta correspondência entre a Câmara Municipal do Sabugal (muito atenta) e a Junta de Freguesia do Soito. Era tudo a bem da Nação.
    “Tendo o Snr. José Augusto Pina Rito, requerido passaporte de turista, rógo (sic) a V.ª Ex.ª se digne informar se tem condições para realisar (sic) tais viagens. A Bem da Nação O Presidente da Câmara”
    Este sr. José Augusto Pina Rito julgo ser irmão do Ti João Rito ( o do Aviário São Cristóvão) e pai do proprietário do complexo hoteleiro Quinta das Sereias.

  2. Gostei muito da expressão “naquele tempo de ditadura”
    Subiu na minha consideração, senhor Ventura.

    JMA

  3. JORGE CLEMENTE diz:

    Eu,acho que foi bom para todos.Para os que partiram como para os que ficaram.Para os que partiram porque foram melhorar as condições de vida na altura e até aos dias de hoje,devido às reformas milionàrias que hoje recebem.Conheço pessoalmente casais a receberem 4 e 5 mil € mês.Para os que ficaram,tiveram menos concorrência aos postos de trabalho que se candidatavam.Por isso hoje se diz,que antigamente se arranjavam bons empregos ao contràrio de hoje.Essas pessoas dessa altura,têm o valor das suas reformas próximas das pessoas que emigraram.Por isso foi bom para todos…Esta é apenas a minha opinião.Espero que os senhores do costume não venham para este blogue a chamarem-me adjectivos inqualificàveis ou PRÓ-VENTURA,como jà recebi por sms no meu telemóvel.Cumprimentos a todos.

  4. Kim Tomé diz:

    “Conto esta história para fazer ver a dificuldade que era emigrar naquele tempo de ditadura, que nada tem a ver com as facilidades que se colocam, nos dias de hoje e, neste caso, ainda bem que assim é.”
    Este povo perdeu a alma!
    Quando alguém considera que é bom emigrar, deixar a sua terra, a sua família, os seus amigos, está possuído de alguma distorção da realidade.
    Tenho dificuldade em perceber que alguém considere normal uma pessoa partir da sua terra em busca de melhor vida.
    Não é normal uma pessoa ser obrigada a sair da sua terra.
    Não é normal alguém dizer “ainda bem que assim é” referindo-se à miserável necessidade de ter de fugir da sua própria terra.
    É esta mentalidade que mata o Sabugal.

  5. João Duarte diz:

    “Essas pessoas dessa altura,têm o valor das suas reformas próximas das pessoas que emigraram” – escreve o sr. Clemente.
    Ó senhor Clemente: em que país vive?
    Se diz que há pessoas que emigraram que recebem reformas de 4 e 5 mil euros por mês e diz que as que ficaram recebem um valor aproximado, está a viver em que país?
    Francamente… Os meus pais recebem de reforma menos de 500 euros por mês (um casal) e são da idade das tais que diz que recebem 4 e 5 mil euros por mês…
    Como se sabe as pessoas emigraram ( e o concelho de Sabugal perdeu 60% da sua população nos anos 60, com a emigração) não por quererem , mas porqure foram obrigados. Cá não havia trabalho e os ordenados eram de miséria. Mas, agora, parece que é moda as pessoas esquecerem-se de tudo o que se passou antes. Ou seja, antes é que era bom, agora é um problema…
    Não vou mandar-lhe nenhum SMS porque não sei o seu número de telemóvel e nem que o soubesse nunca faria isso. Realmente, se há quem faça isso, faz mal.

  6. Jorge Clemente diz:

    Sr. Duarte: peço-lhe o favor de lêr os comentàrios com a devida atenção e não dar respostas em cima do joelho, para que assim possamos ter uma base de entendimento.
    1 – Vivo em Portugal e o senhor?
    2 – Eu,disse que havia CASAIS a receber (…), e não pessoas como o Sr. deturpa, cf. comentário ainda esposto em público,felizmente!
    3 – Se os seus pais recebem esse valor, é porque descontaram sobre o salário minimo, quando na realidade os vencimentos eram muito superiores. Como o povo diz: “ganhar por fora”. Quem não semeia não pode colher… Eu,também já fiz isso,mas para que não me aconteça o mesmo jà deixei de o fazer. E, posso-lhe dizer que fui dos pioneiros a subscrever os PPR`s do Estado.
    4 – Eu sei que era dificil, tal como hoje, nos meios rurais conseguir um emprego estável. Mas, Lisboa e Porto também foram destinos de muitos migrantes. Pessoalmente, sei de um individuo nos anos 60, que deixou um bom emprego numa instituição bancária, em Lisboa, para ir trabalhar na construção civil em França. Ou está-me a querer dizer que agora se consegue melhores empregos e mais estàveis? Só um socialista pode dizer SIM. (não me estou a referir concretamente à sua pessoa).

  7. João Duarte diz:

    Sr. Clemente:

    1- Claro que vivo em Portugal e sei bem o que é Portugal

    2- Eu percebi bem que dizia que quem recebia 4 ou 5 mil euros era um casal e não um só membro do casal. Por isso dei o exemplo dos meus pais, que são um casal e recebem cerca de 500 euros por mês.

    3- Como é que uma pessoa , que nem sequer tem ordenado , como a minha mãe , que sempre foi doméstica, pode descontar por outra coisa que não o salário mínimo?
    Sei bem que a maioria desconta pelo salário mínimo. Em Portugal, o nível de descontos em relação ao ordenado leva a maioria a descontar por esse salário mínimo.

    4- Também sei, que ao contrário do que se diz , as reformas com os valores mais elevados são da Segurança Social e não da Função Pública. Mas esses, que têm altas reformas da Segurança Social não trabalhavam por conta de outrém.

    5- Chamou-me socialista, pensando que me ofendia? Está enganado. Eu sou , sim, socialista, isto é, a favor do socialismo e não de um partido que tem no nome a palavra socialista. O socialismo é uma doutrina política que advoga o humanismo e a fruição social (por toda a comunidade) de uma série de bens e serviços, o que não acontece com os falsos socialistas, que só têm o nome num partido político. A maioria deles nem quem ouvir falar em socialismo.

    6- Mas quem é que disse que , agora, se conseguem empregos mais estáveis? Eu escrevi isso?
    Mas, se comparar os empregos de hoje com os dos anos 60 , há uma diferença abismal. Isso há. Só escrevi que há quem diga que antes é que era bom, porque há quem defenda isso. De qualquer maneira, por mais emigração que haja, hoje em dia (e há muita, infelizmente) não se compara com a situação que se vivia nos anos 60. A diferença é quase como do dia para a noite.
    O que eram a maioria dos emigrantes do concelho , dos anos 60? Deve saber que a maioria estavam ligados à agricultura, que havia uma grande percentagem de analfabetos, não eram trabalhadores especializados, etc. Não era culpa das pessoas que emigravam, mas do regime político em que viviam (e que, aliás, proibia a emigração). Isto é que parece que muitas pessoas se esqueceram.

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