Testemunhos do culto judaico (2)

Kim Tomé - O Bardo - © Capeia Arraiana

A propósito da revista «Sabucale» e do artigo sobre «Armários de pedra na arquitectura tradicional do Alto Côa. Testemunhos de culto Judaico?» venho tecer algumas considerações. (continuação.)

Casa do Castelo - Aron há Kodesh - Sabugal - Capeia Arraiana

Aron Há Kodesh – Casa do Castelo – Sabugal

Olhando na região as construções que mais trabalho têm são as destinadas ao culto religioso, mas se olharmos pelo mundo fora acontece o mesmo.
O homem sempre despendeu muitos dos seus recursos para adorar o seu Deus.
Outro aspecto curioso é a dimensão desmesurada, da casa onde actualmente se situa a «Casa do Castelo», relativamente a outras próximas que se destacam pela sua reduzida dimensão.
A «Casa do Castelo» possui uma dimensão muito superior a outras que há época pertenciam à maior parte da população e onde viviam as tais famílias com mais que seis pessoas, os animais e onde ainda se guardavam viveres para o rigoroso inverno.
Já temos aqui duas coincidências curiosas.
Um «armário» que deu mais trabalho a construir que uma parede completa e uma casa enorme se comparada com as outras, mas será que há mais algo para juntar a isto?
Casa do CasteloSe atentarmos, existiu uma parede interior colocada a sensivelmente 1,70 metros da parede exterior.
Então será no mínimo legitimo perceber, o que fazia aquela parede ali,
Perguntei a algumas pessoas com memórias mais antigas que há muito trabalham na arte de talhar a pedra, se sabiam de alguma razão para aquela parede ali estar.
Perguntei também se fossem eles a fazer aquela casa se fariam aquela parede.
A ambas as perguntas recebi como resposta um definitivo, não.
Então, já temos mais acasos, temos uma parede que parece não ter explicação, uma casa enorme e um «armário», mas mais curioso é que esse dito «armário» está nessa parede que não era necessário fazer.
Observando algumas fotografias tiradas aquando da demolição pela actual proprietária, podemos reparar que o classificado como «armário» estava colocado à altura do peito de um homem médio. (ver comparação na foto.)
Então será legitimo, no mínimo, colocar a questão sobre o que faria o construtor da casa despender tão elevado numero de recursos para construir um “armário” numa parede desnecessária a uma altura de difícil acesso para um homem médio?
Casa do CasteloMais uma vez vêm-me à memória as colossais edificações feitas para adorar os Deuses.
Então será que há mais algo que possa identificar o “«armário» com algo religioso?
Vejamos, os Católicos encerram a Hóstia num «armário», os Judeus encerram a Tora num «armário».
Os católicos tinham naquele largo uma igreja…
Os Judeus teriam….? Issooo!!!! Uma Sinagoga.
Então poderemos continuar a chamar aquele exagerado e trabalhoso «armário» um Armário.
Mas um “armário” especial, um Armário onde se guardava a Tora, onde se rezava a um Deus, um «Armário» que é muito mais que um «armário», é o testemunho de uma comunidade que existiu no Sabugal como em Belmonte ou na Guarda, e que teve poder, engenho e arte para prosperar nesta terra difícil e agreste.
E esse testemunho pode ser a Sinagoga do Sabugal.
«O Bardo», opinião de Kim Tomé

8 Responses to Testemunhos do culto judaico (2)

  1. Joao Valente diz:

    Não seria tão confuso, para alguns leitores, se em vez de lhe chamar “aramário”, chamasse “compartimento secreto”…
    A alguns leitores não admitem por preconceito a significativa presença judaica entre a população de Riba-Côa. O que é facto é que está documentada, e existe em algumas tradições que nos chegaram. O certo é que muitos de nós temos ascendência judaica…

    • Coxo- Clara diz:

      O certo é que muitos de nós temos ascendência judaica…

      Quando eu digo,(e disse) aos meus amigos e familiares de ficarem atentos aos nomes e apelidos em certas familias!…..respondem-me que é excesso de imaginaçao!….

      Macias, Lucas, Irene, Ester, Raquel, Estela, Elvira, Joao………………………….

      Na regiao do meu marido, havia e hà ascendência judaica…
      So que tenho de o dizer baixinho; é dificil para certas pessoas de ” aceitar”.

      marizé

  2. Kim Tomé diz:

    Deve ficar bem claro que eu não chamo “ARMARIO” eu nem atribuo nome, quem o classifica assim é o autor do artigo na revista da Câmara que se chama, “SABUCALE”.
    Na minha opinião é mais que um armário e, se essa denominação utilizo é porque assim é referido no tal artigo.
    Claro que para mim é obvio que estão por encontrar e classificar, imensos vestígios dessa gente, que aqui teve de se abrigar das perseguições impostas pela igreja Católica.
    O que me parece é que, perante a edificação da “Casa do Castelo”, a coincidência das duas paredes, do tal apelidado “armário” , e de uma área coberta desmesuradamente ampla, podemos estar na presença de um importantíssimo vestígio dessa cultura que sem duvida está nas nossas raízes.

    P.S.
    E MAIS UMA VEZ, NÃO SOU EU QUE CHAMO “ARMÁRIO” !
    ESSA É A DESIGNAÇÃO DADA NA REVISTA “SABUCALE”
    🙂

  3. joao valente diz:

    Já tinha percebido que não foi voçê a designar o “armário”, kim. Mas obrigado na mesma pelo esclarecimento.

  4. Zé Morgado diz:

    È no minimo estranho que a Rota das Antigas Judiarias inclua no distrito da Guarda, a própria cidade,Belmonte, Penamacor,Covilhã, Almeida, Pinhel,Celorico,Trancoso, Gouveia, Linhares da Beira e outras localidades e o concelho do Sabugal fosse imune a este surto ou migração forçada dos judeus expulsos de Espanha.No meu entender o que falta é investigar sèriamente os vestigios existentes ou que possam existir da sua permanência por estas paragens,até porque possuimos uma vasta extensão de “raia seca”ou seja, sem obstáculos naturais o que tanto permitia o contrabando coma as “passagens a salto”e a fuga dos judeus através dessa fronteira.
    A proliferação de sobrenomes de àrvores(carvalhos pereiras e outras)é outro dos motivos que nos podem levar a pensar.
    Só nos pode honrar descobrir que alem de sermos descendentes dos lusitanos, tambem corre algum sangue deste povo errante. A Covilhã orgulha-se de ser berço dos cientistas judeus;Celorico deve-lhe o desenvolvimento comercial o seu incremento; Penamacor orgulha-se do médico Ribeiro Sanches e Trancoso do Edificio mais emblemático “A Casa do Gato Negro”, antiga residencia do Rabino.

  5. manel diz:

    para mim esse “armario” servia para se esconderem no caso de serem acosados (perseguidos) . em muitas casas das nossas aldeias ( n`aldeia da ponte ha pelo menos 2) nas ombreiras das portas existem cruzes que na epoca significavam que ali vivia uma familia judaica convertida. e em muitas lojas existiam portas disfarçadas que davam para a do vizinho para poderem fujir.

  6. Kim Tomé diz:

    Manel, 🙂
    Ainda bem que há mais vestígios a merecer estudo, isso só vem reforçar a ideia que defendo de que devia ser feito um estudo aprofundado, das edificações existentes, das histórias que os mais velhos contam e de todos os vestígios que por ventura se possam recolher e catalogar.
    Seria importante fazer um levantamento sistemático dos vestígios e produzir conteúdos capazes de induzir interesse para que as pessoas venham ao concelho conhecer onde e como esta cultura se formou.
    Seria útil que mais pessoas contassem o conhecimento que por ventura tenham de situações idênticas a estas que relata.

  7. Natércia diz:

    Sem dúvida que o Quim Tomé tem feito um trabalho extraordinário pelo Sabugal. Os seus ensinamentos são da velha sabedoria popular, mas com forte conhecimento da História do nosso Sabugal. Este sim é o homem que tem muito para nos ensinar.
    Haja quem defenda os nossos testemunhos judaicos, em especial o da Casa do Castelo, onde de certo se encontram marcas profundas da sua presença entre nós, nomeadamente uma sinagoga, que devia passar a figurar nos nossos mapas de divulgação turística, pois aí a indicação não consta.
    Apesar de toda falta de apoio, temos que remar contra as dificuldades, e colocar o Concelho de Sabugal nas rotas turísticas de interesse cultural desta região.
    Bem haja Quim!

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