Testemunhos do culto judaico (1)

Kim Tomé - O Bardo - © Capeia Arraiana

A propósito da revista «Sabucale» e do artigo sobre «Armários de pedra na arquitectura tradicional do Alto Côa. Testemunhos de culto Judaico?» venho tecer algumas considerações.

Não sou historiador, pelo que não estou sujeito ao cinzentismo do rigor cientifico que o autor coloca no seu texto, permitindo-me a liberdade de admitir alguns aspectos sem esse peso que o autor aplicou no artigo.
Por essa razão, sou levado pelo conhecimento adquirido, pelo que ouvi os mais velhos dizer e opinar sobre o assunto e pelo raciocínio.
Quando em pequeno, tive oportunidade de assistir à que deve ter sido a ultima construção em pedra feita em Pouca Farinha, realizada pelo meu tio Joaquim, que não era arquitecto nem tinha estudos avançados, mas que era homem sabedor. Construiu essa casa, utilizando apenas o saber que recebeu dos nossos antepassados, recorrendo ao seu engenho, arte e ajuda de muitos amigos, que com muito esforço talharam e colocaram no seu devido sitio as lajes de granito.
Tive oportunidade de ver aplicadas na prática as técnicas de outrora, e lembro-me que o esforço era tremendo, sendo que algumas das pedras eram erguidas com recurso a ferramentas rudimentares, como rampas e alavancas construídas de madeira.
Colocar a pedra sobre a porta foi trabalho para alguns homens e levou mais de 2 dias, isto sem contar com a preparação e transporte para o local feito em carro de bois.
Casa do CasteloAo ler o referido artigo e tendo em conta o que me foi dado observar, várias foram as questões que se me levantaram.
Falo no caso da «Casa do Castelo» que é o que melhor conheço, deixando os outros um pouco à parte, sendo que o que vou dizer, são questões que também se podem colocar aos outros exemplos falados no referido artigo.
Sabendo o esforço necessário para construir uma casa de pedra, com recurso a técnicas ancestrais, por o ter presenciado, parece-me que seria demasiado tanto esforço e trabalho para construir um «Armário».
No caso da «Casa do Castelo», falamos de uma peça arquitectónica que pesa algumas toneladas composta por 9 pedras de granito, cuidadosamente talhadas, com cerca de 1,81 metro de altura por perto de 1,25 metro de largura.
Sabendo, porque presenciei, o trabalho que dá talhar no granito tais peças e o esforço que implica a sua colocação, a questão que se me coloca é a seguinte:
Será que quem construiu essas peças, as realizou com o intuito de lá colocar as «gamelas» onde se comia, e mais alguma pequena panela ou outro utensílio domestico que na época da construção eram escassos?
Lembro-me ainda bem. quando menino, em casa dos meus avós, familiares e amigos poucos eram os utensílios e mobiliário.
Na maioria existia, uma cântareira de madeira onde um ou dois cântaros continham a agua para beber com uma malga na boca para impedir a entrada de poeiras, uma ou duas panelas de ferro para cozinhar os caldos, um caldeiro para a vianda do porco, uma ou duas gamelas de onde todos comiam sentados em bancos baixos de 3 pés e algumas cucharras (colheres) e garfos de ferro.
Na época os lavatórios eram peças de mobiliário pouco comuns, e algumas casas tinham uma cadeira que se destinava a visitas importantes como o Sr. Padre ou o Sr. Doutor.
As mesas eram novidade na época e um luxo que apenas alguns tinham.
As camas eram enxergas de camisas de milho e quartos era coisa que não era comum, que a existirem não eram mais que o espaço de uma cama, até porque nas casas mais modestas chegavam a viver mais de meia dúzia de pessoas, sem cama sendo muitas vezes a «cama» um pouco de feno ajeitado, junto dos animais na loja.
Eram assim as casas modestas do povo de que eu me lembro.
O que me leva a crer que na época da construção da «Casa do Castelo» e das outras referidas, mesmo que porventura mais abastadas, seriam idênticas às mais modestas casas que conheci.
Assim, questiono-me porque razão quem construiu estas casas despendeu tanto tempo e recursos para construir um «armário» onde não cabia um cântaro?
Para construir o classificado como «armário» da Casa do Castelo utilizando as mesmas técnicas que o meu Tio utilizou, seria necessário o trabalho de muitos homens durante mais de um mês, desde a recolha da pedra até à sua colocação.
Então, será que o dono da casa iria optar por essa solução apenas para construir um «armário»?
Se fosse essa a finalidade não teria optado pela utilização da madeira, como acontecia na cântareira da minha Avó?
Então qual seria a utilidade de despender tantos recursos e matéria numa peça arquitectónica?
(Continua no próximo domingo, 29 de Março.)
«O Bardo», opinião de Kim Tomé

7 Responses to Testemunhos do culto judaico (1)

  1. joao valente diz:

    Post interessante este e que me deixou a pensar, pela forma pertinente como põe a questão… Como posso aceder à revista “Sabucale”, para ler o artigo citado?

  2. Mário Pires diz:

    Porèm, convem perguntar, o esforço aqui descrito para construir um altar destes é motivo que chega para dizer que tem que ser judio? Tudo o que é esforçado é judio? O seu tio não se esfoçou para colocar a torsa na porta? e não era judio. Na malhada Sorda há uma casa arruinada que tem dois destes na mesma casa, deu esforço fazelos e tambem sao judios?

  3. Kim Tomé diz:

    Mário Pires em primeiro convinha aprender a ler, e em segundo convinha aprender a escrever.
    No mínimo faça como eu use o corrector ortográfico.
    Mas mais, no texto que aqui está em algum local eu digo que o classificado como “armário” é judio.
    Contudo, eu acredito que sim.
    Mas o importante nesta minha resposta é dizer que você não percebeu nada do que escrevi.
    Mais não percebeu porque existe a comparação com o esforço despendido elo meu Tio.
    Mas mais, extrapola as minhas afirmações tentando ridicularizá-las (repare que existe ali um hifen).
    Fico contente por perceber que já leu o resto do artigo e que, mesmo depois de saber o que lá está são esses os argumentos que tem para contrapor, é um tipo de dialogo que em nada contribui para a saudável discussão, mas que denuncia as suas intenções de ridicularizar sem razão as minhas palavras, que felizmente são secundadas por gente que sabe destas coisas.
    E, se há mais “armários” pois vamos lá analizá-los (com hifen).
    E, porque não foram descritos no mesmo artigo onde foram referidos estes?
    Bem, concluindo, apenas faz extrapolações sem sentido e demonstra a sua vontade de denegrir algo que nem sabe bem o que é só porque sim.
    Se quiser terei muito gosto em “traduzir” o que digo para linguagem mais corriqueira a fim de permitir a sua compreensão do texto.

  4. Mário Pires diz:

    Está visto que vós só aceitais escritas de Doutores e ilustres. dei a minha opinião mas se é esta a vossa maneira de estar na vida, não estais bem. não o ofendi.
    Posso não escrever bem, mas não sou burro. Quem falou em testemunhos judios foi vocé no titulo da sua escrita. E depois achei que o resto não tinha nada haver.

  5. Kim Tomé diz:

    Caro Mário Pires o titulo não é meu, está entre aspas porque é o titulo do artigo na revista “SABUCALE” – «Armários de pedra na arquitectura tradicional do Alto Côa. Testemunhos de culto Judaico?» – e é a propósito desse artigo que tenho a veleidade de tecer algumas considerações, admitindo outro ponto de vista que não coincide com o do autor do artigo.

    Claro que não me sinto ofendido e não não sou Dr. e também não sou ilustre. :).

    E quanto a ter a ver … têm sim! basta estar atento aos próximos “episódios”. 🙂

    Para mim a discussão é a porta para o conhecimento, jamais ficaria ofendido por alguém não estar de acordo comigo.Outras pessoas, ficam por alguém os contestar, porque estão convencidos que são donos da razão, não é o meu caso.

    Estou habituado a ser contestado e corrigir os meus pontos de vista sem dramas 🙂
    Não sou dono da razão, apenas tiro as minhas conclusões, que podem não ser as mais corretas.
    Ao assumi-las publicamente, coloco-as à discussão para que com isso se possam descartar ou aceitar novas ideias e novas possibilidades, tão simplesmente isso.

    Sem dramas.

    Quando disse que devia aprender a ler, devia te-lo dito de forma mais soft e educada, estou mal habituado à forma caustica como comunicamos na WEB, por vezes esqueço que neste blog é tudo mais formal 😛 , enfim hábitos de velho websurfer.

  6. Zé Morgado diz:

    (…)quando se vê uma pedra, caso se desconheça a História, apenas observa uma pedra.Mas se estiver por dentro da História, verá muito mais do que uma simples pedra.Isso , só por si, é muito gratificante.E tambem permite-nos aprender para não tropessarmos sempre no mesmo obstáculo(…) (Jorge Tua Pereda)

  7. Coxo- Clara diz:

    Bem-hajam pelas informaçoes. Sao RICAS de Historia.

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