Reinventar a Lusitânia de Viriato no Sabugal

José Robalo – «Páginas Interiores»Para além de ser um dos poemas mais interessantes escritos em língua portuguesa, o soneto de Camões, «Amor é fogo que arde sem se ver» pretende ser um brinde a todos os alunos do 12.º ano, que fizeram exame de Português e tiveram por tarefa a análise dum extracto dos «Lusíadas» deste mesmo autor.

Amor é fogo que arde sem se ver
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
….
Luís de Camões

Penso que para gostarmos duma língua e dos seus artífices – os escritores – temos que proporcionar aos nossos jovens a leitura de textos agradáveis que criem adição pela leitura, evitando textos mais rebuscados e que por vezes ainda não estão preparados para compreender na sua plenitude, provocando assim efeitos perversos.
Na perspectiva de Camões o amor é um contentamento descontente; este pensamento encerra em si um notável paradoxo que na sua plenitude reflecte este sentimento.
Foi utilizando um paradoxo que o ministro da economia e das finanças espanhol, Pedro Solbes, caracterizou o estado da economia espanhola, quando afirmou que esta se encontra numa desaceleração acelerada.
Numa desaceleração acelerada, está também a nossa economia apesar das resistências deste governo que nos desgoverna em reconhecer esta realidade, que atinge em primeira linha os mais desprotegidos, neste caso as populações do Interior que sofrem com o desinvestimento do governo central.
História do SabugalSe analisarmos o PIDDAC, constatamos a míngua orçamental da administração central para o interior. É assim que o governo nos trata. Com desprezo. Agravar esta situação o mesmo governo vai encerrando paulatinamente serviços públicos essenciais.
Esta política de asfixia do interior para cortar na despesa pública, traz-me à memória uma frase batida do pensamento anarquista: «Quem nos protege dos nossos protectores?» O que nos poderá valer contra esta política centralizadora que aposta na desertificação e encerramento do Interior?
A minha esperança reside num poder autárquico dinâmico, forte e imaginativo, capaz de apostar em políticas e medidas de desenvolvimento económico no apoio às pequenas empresas, a base do tecido económico do Interior, para enfrentar esta razia economicista e cega, onde tudo é permitido no combate ao défice.
Estou seguro que só desta forma poderemos enfrentar esta desaceleração acelerada, com pessoas à altura e vontade de ajudar a decidir e definir o nosso futuro.
Nesta linha de pensamento, entendo que de forma arrojada poderíamos apostar na criação de um parque temático para o concelho, com atractividade e que por si seria a mola impulsionadora do desenvolvimento. Porque não um parque que apostasse na divulgação e reinvenção da Lusitânia e dos seus habitantes, com Viriato e Sertório à cabeça? Penso que estes nossos heróis nada ficam a dever a Asterix e seus companheiros, até porque os primeiros existiram e são os nossos antepassados. Combateremos assim este sublime vazio.

:: :: PARA LER :: ::
«Versos e alguma prosa de Luís de Camões», com prefácio de Eugénio de Andrade, Edição da Fundação Calouste Gulbenkian.
«Kafka à beira-mar», de Haruki Murakami, Casa das Letras.

:: :: PARA OUVIR :: ::
«Tord Gustavsen Trio», Being There, ECM.
«A gente ainda não sonhou», Carlinhos Brown, Columbia, Sony BMG.

:: :: PARA ASSISTIR :: ::
«Festas de S. João no Sabugal», com bar e restaurante permanente.

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

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