Até parece que temos medo de pensar

José Robalo - Páginas Interiores - © Capeia Arraiana

Como é que posso com este mundo?, questionava-se o jagunço Riobaldo Tatarana, desenhado por João Guimarães Rosa, no seu livro «Grande Sertão: Veredas», que com alguma inquietação constatava que este mundo anda muito misturado.

A notícia aí está, ocupando as primeiras páginas dos jornais de todo o mundo: os cubanos poderão alojar-se nos hotéis. A decisão está tomada, apesar de oficialmente ainda não existir nenhuma confirmação. Brevemente, os cubanos poderão alojar-se nos hotéis da ilha como qualquer turista. Esta decisão de Raul Castro, o novo homem forte do regime, apesar de insólita, poderá significar um certo ar de liberdade.
Na ilha vive-se de forma deprimente, faltando de tudo a começar pela liberdade e bens de primeira necessidade, onde tudo é racionado…
É verdade que o embargo americano é parcialmente responsável por esta situação, que de forma cega põe em causa o direito a uma vida digna de toda uma população.
A economia mundial está em crise com o aumento desenfreado dos preços do petróleo, a queda das bolsas, reflexo já não de uma constipação da economia americana, mas sim de uma dupla pneumonia, que se não for atalhada poderá ter consequências muito graves para esta economia globalizada.
Veredas», de João Guimarães RosaAs nossas esperanças residem neste momento num jovem candidato a candidato que se chama OBAMA. Apesar de ser republicano penso que se fosse cidadão americano o meu apoio iria para este homem. George Bush teve o condão de pôr em dúvida o meu republicanismo, porque sempre preferi um presidente, a um rei.
A nível interno aquilo que mais me aflige é uma frenofobia generalizada, constatando que as pessoas começam a ter medo de pensar, confirmando assim o pensamento do poeta José de Almada Negreiros quando afirmava «Ó músculos da saúde de ter fechado a casa de pensar».
Diz-se que num momento de lucidez, mas sempre com o respeito pelo pacto de silêncio, o padrinho da máfia Michael Corleone, terá afirmado: «Tentei regenerar-me e começar a fazer negócios legais, mas à medida que fui subindo na escala social, mais porcaria encontrei.»
Assim mesmo!…
Ainda se recordam quando na escola estudávamos Emanuel Kant, penso que na sua «Crítica da Razão Prática», um tratado de filosofia sobre as obrigações morais, onde desenvolveu o seu «Imperativo Categórico», que reza mais ou menos o seguinte: «Age de tal modo que a máxima da tua acção se possa tornar princípio universal.»
Exerçamos a cidadania na sua plenitude.
Boa Páscoa.

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Para ouvir: Bach: A Paixão Segundo São Mateus, de John Eliot Gardiner.
Fauré: Requiem, editora harmonia mundi.
Mozart: Requiem, Deutsche grammophon.
Handel: Messiah, de Paul Mccreesh.

Para ler: «Grande Sertão: Veredas», de João Guimarães Rosa, Editora Nova Fronteira.
«A Cena do Ódio», de José de Almada Negreiros.

Para ver e a não perder: No TMG, exposição de Nadir Afonso, um dos maiores pintores portugueses vivos, até ao dia 18 de Maio.
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«Páginas Interiores» opinião de José Robalo

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